O ESTAMPIDO DE PIRAJUÍ



 

Tivesse tudo começado pelo final

Antevendo o final

Desprovido de vaticínio

Em nossa condição de mortais

Não teria uma mulher ficado sem seu marido

Nem uma filha sem o seu pai.

 

Aquele estampido, relutantemente calado

E que depois foi calado

Perto não deu conta de ser ouvido

E haja vista que nem vai

Mas abalou uma mulher que perdeu seu marido

E uma filha que perdeu o seu pai.

 

Culpa é o sentimento de ter violado a própria consciência moral

Uma pessoa culpada

Não assume assumir a culpa

E haja vista que nem vai

Nem se desculpar com a mulher que perdeu seu marido

E com a filha que perdeu o seu pai

 

Talvez nem o tempo longínquo que seja

Não seja capaz de apagar uma memória

Que desconstrua essa história

E haja vista que nem vai

Mas irá lembrar essa mulher que perdeu seu marido

E essa filha que perdeu o seu pai.

 

O que aconteceu em Pirajuí foi um crime

E pior ainda que crime

Foi não culpar a culpada

E haja vista que nem vai

Mas que, horrendo, deixou uma mulher sem marido

E deixou uma filha sem pai.

 

 

 

 

 

 

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